02/12/25
A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma cela da Polícia Federal em Brasília abriu uma disputa inédita pelo comando simbólico do bolsonarismo. Sem o líder em campo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os três filhos políticos do ex-chefe do Planalto — o senador Flávio, o vereador Carlos e o ex-deputado Eduardo — travam um embate público sobre quem dará as cartas na direita nas eleições de 2026.
A crise veio à tona a partir do diretório do PL no Ceará. Michelle criticou, em evento público, a articulação do partido para se aproximar do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), rechaçando a aliança e defendendo outro caminho para a sigla no estado. A declaração foi lida como um gesto de insubordinação à cúpula do PL e à própria estratégia desenhada em torno do nome de Jair Bolsonaro, hoje impedido judicialmente de disputar eleições, mas ainda referência central da base conservadora.
Em resposta, os filhos 01, 02 e 03 do ex-presidente divulgaram manifestações coordenadas nas redes sociais para desautorizar Michelle. Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro afirmaram que a movimentação no Ceará tinha o aval do pai e classificaram as críticas da ex-primeira-dama como “injustas”, “desrespeitosas” e “autoritárias”, num raro movimento público de enfrentamento direto dentro do próprio clã.
A reação da família foi seguida por movimentos internos no PL. Relatos de bastidores apontam que o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, convocou reunião de emergência para “baixar a temperatura” e, ao mesmo tempo, tentar “enquadrar” Michelle, reforçando o protagonismo de Flávio como porta-voz oficial do grupo enquanto Jair permanece preso e inelegível. A avaliação na cúpula é de que o racha aberto expõe fragilidades em plena construção do palanque para 2026.
Michelle, por sua vez, tentou conter o desgaste sem recuar do conteúdo de suas críticas. Em novas manifestações, disse que não responderia diretamente aos filhos, mas reiterou discordar da aliança no Ceará e retomou o discurso de defesa de “princípios” e “coerência” na direita, reforçando sua imagem junto ao eleitorado evangélico e às bases mais ideológicas do bolsonarismo. Analistas veem na movimentação um ensaio de afirmação de liderança própria, num momento em que o nome da ex-primeira-dama aparece com relevância em cenários para 2026, embora ela negue ter candidatura definida.
Na prática, o embate explicita a disputa pela “herança política” de Jair Bolsonaro: de um lado, os filhos buscam preservar a estrutura tradicional do grupo, com decisões negociadas via PL e alinhadas ao entorno mais antigo do ex-presidente; de outro, Michelle tenta se colocar como voz moral e popular do bolsonarismo, com discurso próprio e maior trânsito no eleitorado religioso. Com o líder máximo atrás das grades e a direita fragmentada, o desfecho dessa guerra doméstica deve ser decisivo para definir quem comandará o campo bolsonarista na eleição de 2026.