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Institutos ligados ao mesmo grupo recebem R$ 3,1 milhões em emendas em Goiânia

06/12/25

Três organizações da sociedade civil ligadas a um mesmo analista de sistemas receberam, desde 2023, R$ 3,1 milhões em emendas impositivas de vereadores de Goiânia. As entidades — Instituto Cerrado (IC), Instituto de Inclusão Gestão e Negócios (2IGN) e Instituto de Engenharia, Agronomia e Meio Ambiente (Ineaa) — compartilham vínculos diretos com Marco Antonio Delgado Teixeira, de 51 anos, que figura como responsável administrativo ou executivo em todas elas.

Apesar dos repasses, as três instituições não possuem sede própria e informaram ao poder público endereços comerciais que não correspondem ao local onde, de fato, funcionam. O jornal O Popular esteve no endereço indicado e encontrou uma sala vazia. Posteriormente, localizou endereço fiscal em um imóvel no Sítios Santa Luzia, em Aparecida de Goiânia — o mesmo registrado para uma empresa do próprio Marco Antonio, a Umbrella Inclusão Gestão e Negócio. Apenas o Instituto Cerrado, segundo ele, opera em endereço distinto, no município de Jaraguá.

Além da sobreposição administrativa, parte dos projetos aprovados mediante emendas aponta contratações de empresas pertencentes ao analista de sistemas e pessoas próximas aos dirigentes. Em um dos casos, serviços de um instituto foram terceirizados para outro pertencente ao mesmo grupo.

A emenda mais recente destinou R$ 500 mil ao 2IGN para a realização de quatro eventos esportivos em 2025, como corridas de rua e provas de BMX. O valor estava originalmente previsto para a Associação Planeta Desportos, que não apresentou documentos exigidos. O 2IGN assumiu o plano, mas não aparece como organizador nas peças de divulgação dos eventos para os quais recebeu recursos.

Um documento que comprova a participação do instituto na Corrida Rosa e Azul 2023 foi elaborado por Emanuel Araújo Muniz, sócio da Racing Time, empresa que organiza a prova, e superintendente de Articulação Institucional da  Secretaria de Articulação Institucional e Captação (Secap) da Prefeitura de Goiânia — pasta responsável pela liberação das emendas. Ele também emitiu parecer favorável à aprovação do repasse. Emanuel afirma que apenas auxiliou na elaboração do relatório técnico e nega ter recebido vantagem financeira.

Nos orçamentos, o 2IGN indicou preços mais baixos apresentados pela Umbrella, empresa de Marco Antonio. O plano de trabalho prevê R$ 20 mil apenas para elaboração do documento técnico, sem detalhamento de equipe ou escopo de execução.

Outro projeto financiado foi o Cine Inclusão, proposto pelo Instituto Cerrado, que recebeu R$ 500 mil em 2024 e R$ 450 mil em 2025 para exibição de filmes em escolas municipais com temática de inclusão e combate ao capacitismo. Em ambos os anos, o orçamento apontou o 2IGN como fornecedor mais vantajoso. Os planos preveem que 57% do valor seja utilizado para serviços administrativos, jurídicos, contábeis, de marketing e fotografia. O detalhamento sobre número de sessões, filmes exibidos e resultados mensuráveis não consta nos documentos.

Em 2023, o Ineaa recebeu R$ 550 mil para o projeto Formando Atletas, destinado à formação esportiva em escolinha de futebol no Garavelo. A prestação de contas, aprovada pela prefeitura, mostra pagamentos a empresas ligadas a dirigentes e conhecidos. Uma familiar de membro da diretoria recebeu R$ 256 mil por serviços administrativos e de marketing; outra empresa associada a Emanuel Muniz recebeu R$ 156 mil.

Responsáveis admitem vínculos
Marco Antonio reconhece que participa dos três institutos e administra todos os projetos. Afirma que a separação das organizações busca “divisão temática” e nega irregularidades. “Temos um grupo que executa projetos voltados a pessoas vulneráveis e ao Cerrado. Cada instituto trata de uma área para não misturar as coisas. Escrevo todos os projetos”, disse.

Ele admite que a mudança de endereço não foi atualizada no período exigido e confirma contratações internas entre instituições do mesmo grupo: “Nossa filosofia é cuidar dos de casa primeiro”.

Cássio Rodrigues, presidente do 2IGN, diz que trabalha com atividades administrativas e de marketing e confirma que uma familiar prestou serviços no Cine Inclusão. Afirma, porém, que a Umbrella não teria sido contratada, apesar de aparecer como menor orçamento nos planos apresentados.

Emanuel Muniz afirma que sua atuação com o Ineaa foi apenas comercial. Após a repercussão, colocou o cargo à disposição na Secap, mas permaneceu no posto.

Fiscalização
Vereadores e prefeitura divergem sobre quem deve acompanhar a execução das emendas. A Secap afirma que apenas valida a viabilidade documental e que a fiscalização cabe à gestão municipal. Os parlamentares que destinaram recursos dizem que a Prefeitura tem a obrigação de monitorar o uso dos recursos públicos.

Willian Veloso (PL), autor das emendas do Cine Inclusão, afirma que o foco deve estar na execução, e não no vínculo entre fornecedores. Já Geverson Abel (Republicanos), responsável pelo repasse ao projeto esportivo, defende que atua com cautela, mas reconhece que a verificação final deve ser do Executivo. Anderson Sales, autor da emenda mais recente, não se pronunciou sobre o caso.


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