10/01/26
Dezenove organizações da sociedade civil vão receber, individualmente, mais de R$ 2 milhões em emendas impositivas indicadas por vereadores de Goiânia em 2026. Juntas, essas entidades concentrarão 44% de todo o orçamento impositivo previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) do próximo ano. O dado consta de levantamento publicado pelo O Popular, com base no texto final aprovado pela Câmara Municipal de Goiânia em 30 de dezembro e sancionado pela prefeitura nesta sexta-feira (9/1).
Ao todo, os vereadores poderão destinar R$ 185,12 milhões por meio de emendas impositivas, valor equivalente a 2% da receita corrente líquida do município. Cada um dos 37 parlamentares dispõe de pouco mais de R$ 5 milhões para indicar ao longo do ano. O montante individual foi mantido em relação a 2025 em razão da ampliação do número de cadeiras na Câmara, acompanhando o crescimento populacional da capital.
A maior parte desse volume seguirá direcionada ao terceiro setor. Em 2026, associações, institutos e organizações sociais ficarão com R$ 156,62 milhões, cerca de 85% do total. O percentual representa queda em relação a 2025, quando atingiu 95%, mas ainda mantém ampla predominância. A redução é atribuída a desgastes recentes, envolvendo suspeitas de irregularidades e investigações sobre algumas entidades, além da avaliação, por governistas, de maior capacidade de execução direta por parte da administração municipal na gestão de Sandro Mabel (União Brasil).
O levantamento desconsidera repasses a universidades e institutos federais quando os recursos são destinados às próprias instituições públicas. O restante do orçamento impositivo foi reservado a órgãos e equipamentos da prefeitura.
Pelo segundo ano consecutivo, a maior beneficiária é a Associação Comunidade Batista (ACB), que terá direito a R$ 14,7 milhões. Em seguida aparece o Grupo Futuro Gestão de Saúde, com R$ 13,5 milhões. Em ambos os casos, a maior parte dos recursos está vinculada a projetos de mutirões de saúde nos bairros. Diante da exigência legal de que metade das emendas seja aplicada na área da saúde, vereadores têm priorizado iniciativas com unidades móveis para consultas e exames médicos e odontológicos, conhecidas como carretas da saúde.
Esses projetos, porém, estiveram no centro de questionamentos em 2024, quando foram alvo de operação policial e de decisões de suspensão determinadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO). Mesmo assim, seguem como principal destino das indicações parlamentares.
No Orçamento de 2025, a ACB já havia recebido R$ 14 milhões. A entidade foi declarada de utilidade pública pela Câmara em junho do ano passado, por projeto de iniciativa da vereadora Léia Klebia (Podemos), que também foi responsável pela maior destinação individual à associação: R$ 3,2 milhões. Segundo o texto da emenda, os recursos atendem ações de saúde e também “custeio de programas gerais, promoção à assistência social, cultura, esporte; estudos e pesquisas; treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial; e treinamento em informática”. Outros nove vereadores também destinaram valores à ACB.
O Grupo Futuro Gestão de Saúde, que em 2025 foi o terceiro maior beneficiário, com R$ 7,8 milhões, teve aumento de cerca de 70% nas indicações para 2026. Todos os projetos estão ligados à área da saúde e foram apresentados por 14 vereadores. A entidade é sediada em Ribeirão Preto (SP) e abriu filial em Goiânia no fim de 2024.
A Associação S.O.S Vidas aparece na sequência, com R$ 7,8 milhões, também integralmente destinados à saúde. No ano passado, a organização ocupava a segunda posição no ranking de repasses.
Segundo vereadores, a concentração de recursos em entidades sociais ganhou espaço nos últimos anos sob o argumento de menor burocracia e maior agilidade na execução e na apresentação de resultados. O líder do prefeito na Câmara, Wellington Bessa (DC), avalia que a tendência é de redução gradual desse modelo, à medida que aumenta a confiança na capacidade do poder público de executar diretamente as emendas.
Entre os parlamentares que mais concentraram recursos em uma única entidade, o destaque é Igor Franco (MDB). Ele destinou metade de sua cota ao Instituto Léo Moura, voltado a projetos de futebol para crianças e adolescentes. Em 2025, o vereador já havia feito indicação semelhante à mesma entidade.