Goiânia, 18/05/2026
Voz de Goiás
·
Contato: vozgoias@gmail.com
Matérias


Família Bolsonaro atacava Lei Rouanet enquanto filme movimentava R$ 61 milhões 

17/05/26

A divulgação de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, colocou no centro do debate uma contradição envolvendo o discurso da família Bolsonaro contra a Lei Rouanet. Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados passaram anos criticando mecanismos de incentivo cultural, documentos revelam a negociação de até R$ 134 milhões para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente.

Segundo informações divulgadas pelo The Intercept Brasil, Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões para a produção do longa. Desse total, ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, já teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

O caso ganhou repercussão após a publicação de conversas atribuídas a Flávio Bolsonaro e ao banqueiro. Em uma das mensagens, enviada em novembro de 2025, o senador escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.

As mensagens vieram à tona um dia após Daniel Vorcaro tentar deixar o país em meio às investigações envolvendo o Banco Master. O banqueiro passou a ser investigado por supostas fraudes financeiras que teriam provocado prejuízo bilionário ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A revelação das tratativas ampliou questionamentos sobre a falta de transparência na movimentação dos recursos destinados ao filme. Conforme a reportagem, os próprios produtores afirmaram não ter recebido os valores, e até o momento não há prestação pública de contas, divulgação de contratos, planilhas de custos ou documentos que indiquem a aplicação dos recursos.

Os valores negociados para “Dark Horse” também chamaram atenção pelo tamanho. Dados do sistema Salic Comparar, do Ministério da Cultura, mostram que os R$ 134 milhões superam o total captado via Lei Rouanet por diversos estados brasileiros em 2025. Santa Catarina, por exemplo, registrou R$ 124 milhões em captação cultural no período, enquanto o Distrito Federal ficou com R$ 92,6 milhões.

O episódio reacendeu discussões sobre a Lei Rouanet, principal mecanismo federal de incentivo à cultura. Diferentemente do discurso difundido por setores bolsonaristas nos últimos anos, a legislação não transfere recursos diretos do Tesouro Nacional para artistas ou produtores. O modelo funciona por meio de renúncia fiscal, permitindo que empresas e pessoas físicas destinem parte do Imposto de Renda devido a projetos aprovados pelo Ministério da Cultura.

A legislação também prevê exigências de transparência e prestação de contas. Projetos financiados pela Lei Rouanet precisam apresentar documentação detalhada sobre despesas, além de cumprir contrapartidas sociais e limites de captação definidos pelo governo federal.

Durante o governo Jair Bolsonaro, as regras da Lei Rouanet sofreram alterações, incluindo redução dos tetos de captação. À época, integrantes da família Bolsonaro afirmavam que o mecanismo favorecia irregularidades e uso político de recursos culturais.

Agora, o caso envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro levanta questionamentos justamente sobre ausência de controle e fiscalização em negociações privadas ligadas ao financiamento do filme sobre o ex-presidente. Até o momento, não houve explicação pública detalhada sobre a destinação dos R$ 61 milhões já movimentados para a produção de “Dark Horse”.


·

2026. Voz de Goiás. Direitos reservados.