09/08/26
Oito anos depois da eleição que alterou a correlação de forças em Goiás e levou Ronaldo Caiado ao governo no primeiro turno, o cenário político estadual chega a 2026 com quatro grupos na disputa pelo Palácio das Esmeraldas. A avaliação é da jornalista Cileide Alves, em artigo publicado no jornal O Popular, no qual analisa a reorganização política do Estado e o papel de antigos e novos protagonistas nesse processo.
No artigo intitulado “Quatro forças se reorganizam em Goiás”, Cileide aponta a eleição de 2018 como o ponto de ruptura do modelo político que predominava no Estado. Naquele ano, a derrota do PSDB encerrou um ciclo de duas décadas de protagonismo de Marconi Perillo, enquanto Caiado chegou ao governo em meio ao avanço da direita no país. O período seguinte também teve as mortes de Maguito Vilela e Iris Rezende, em 2021, dois dos principais nomes da história do MDB goiano.
A jornalista lembra que, diante daquele cenário, ela e o jornalista Vassil Oliveira levantaram uma questão: quais forças ocupariam o espaço aberto pela reorganização iniciada em 2018? Na avaliação apresentada agora, a resposta começa a aparecer na eleição deste ano. Daniel Vilela (MDB), Wilder Morais (PL), Marconi Perillo (PSDB) e Luís César Bueno (PT) representam os quatro campos que chegaram à disputa pelo governo.
Wilder ocupa o espaço da direita ligada ao bolsonarismo. Cileide cita pesquisa Quaest de agosto de 2025 segundo a qual 18% dos eleitores goianos se declaravam bolsonaristas, enquanto outros 26% se identificavam como de direita, mas sem vínculo com o bolsonarismo. É justamente sobre essa segunda parcela que ocorre uma das disputas políticas apontadas no artigo, uma vez que Caiado também construiu sua liderança nesse segmento.
Daniel, por sua vez, chega à eleição como governador e representante do grupo formado em torno de Caiado. Segundo a análise, essa força política não existia com a mesma estrutura quando o então senador venceu a eleição de 2018. Naquele momento, Caiado precisou buscar fora do Estado parte dos nomes que ocuparam posições no primeiro escalão de seu governo. A incorporação do MDB à base, em 2022, ajudou a ampliar a sustentação política da administração.
A relação entre Caiado e Daniel ocupa espaço central nessa construção. Durante a convenção governista realizada na quarta-feira (5), o governador definiu os dois como uma “dupla política afinada”. Cileide, porém, observa que houve divergência na montagem da chapa para 2026, especialmente na definição de Luiz do Carmo (PSD) como candidato a vice-governador, nome que tinha a preferência de Daniel. “O tempo dirá se isso deixou sequelas”, escreve a jornalista.
Na leitura apresentada no artigo, Caiado também passou a ocupar parte do espaço político deixado por Iris Rezende. Cileide cita a avaliação do cientista político Pedro Célio Alves Borges, para quem o ex-governador “herdou” parcela desse espólio e, a partir dele, conseguiu formar um grupo político que hoje ultrapassa os limites partidários.
Essa configuração coloca o MDB novamente no centro de uma eleição estadual. Após 27 anos, o número 15 volta a aparecer na urna em uma candidatura ao governo com condições de protagonizar a disputa. Desta vez, porém, Daniel representa um projeto que reúne a estrutura emedebista e o grupo construído por Caiado desde 2018.
Marconi tenta reconstruir espaço político
Outro movimento identificado por Cileide é o retorno de Marconi Perillo à disputa pelo governo. O tucano parte para sua quinta eleição ao Palácio das Esmeraldas, mas em circunstâncias diferentes das encontradas em 1998, quando derrotou Iris Rezende e iniciou o ciclo político que comandaria Goiás durante duas décadas. A comparação feita no artigo inverte os papéis daquela eleição.
Se há 28 anos Marconi era o candidato mais jovem diante de um político com experiência administrativa, agora é Daniel, aos 42 anos, quem enfrenta um ex-governador com quatro mandatos no currículo. Para Pedro Célio Alves Borges, citado por Cileide, uma das dificuldades de Marconi está na ausência da estrutura política que sustentou suas antigas campanhas. “A peculiaridade de Marconi é que ele precisa de um grupo político consolidado, coisa que não tem mais”, registra o artigo ao reproduzir a avaliação do cientista político.
Direita e esquerda também buscam espaço
Do outro lado da disputa está Wilder Morais, candidato do PL e representante do campo bolsonarista. Sua candidatura tenta transformar a identificação de parte do eleitorado goiano com a direita e com o ex-presidente Jair Bolsonaro em uma estrutura eleitoral própria no Estado. Já Luís César Bueno representa o campo da esquerda. O artigo cita novamente os números da Quaest de agosto de 2025, segundo os quais 10% dos eleitores se declaravam lulistas ou petistas e outros 8% se identificavam com uma esquerda não lulista.
Para Cileide, o desafio desse grupo está em transformar esse eleitorado em força competitiva numa disputa estadual, algo que historicamente encontrou dificuldades em Goiás. O desenho apresentado pela jornalista mostra, portanto, uma eleição que combina continuidade e reconstrução. Daniel tenta manter no poder o grupo organizado a partir dos governos Caiado; Wilder busca consolidar uma direita eleitoralmente independente desse campo; Marconi tenta reconstruir o espaço perdido pelo PSDB; e Luís César Bueno procura reunir o eleitorado de esquerda.
Na conclusão do artigo, Cileide atribui a Caiado papel central nessa reorganização. Para ela, o ex-governador chega à eleição como principal articulador do projeto representado por Daniel e como liderança de um campo que disputa espaço tanto com o bolsonarismo quanto com o marconismo. O resultado das urnas mostrará qual dessas forças conseguirá transformar a reorganização dos últimos oito anos em um novo ciclo de poder em Goiás.