05/09/26
Uma empresa com sede em Goiânia aparece como fornecedora em contratos públicos que movimentaram mais de R$ 30 milhões com materiais ligados à metodologia educacional criada pelo escritor e candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante). Levantamento do Fórum Investiga identificou 25 contratos e outros instrumentos em dez Estados relacionados à Escola da Inteligência e à Teoria da Inteligência Multifocal.
A Inteligência Educacional figura nos documentos como responsável pela comercialização e distribuição de livros, kits e outros materiais adquiridos por prefeituras e governos. Cury aparece como autor das obras utilizadas no programa, mas não como signatário direto dos contratos públicos identificados no levantamento. Documentos analisados mostram como funcionava a estrutura comercial. A Escola de Inteligência Cursos Educacionais, sediada em Ribeirão Preto (SP) e então ligada à família de Cury, aparece como editora das obras.
Já a Inteligência Educacional, de Goiânia, é identificada como distribuidora e comercializadora dos produtos destinados ao poder público. Um dos processos utilizados para demonstrar essa relação foi aberto pela Prefeitura de Caçador, em Santa Catarina, em 2019. Na ocasião, a empresa goiana apresentou proposta para implantar a Escola da Inteligência na rede municipal de ensino. A documentação informava que os materiais tinham como base a Teoria da Inteligência Multifocal, desenvolvida por Augusto Cury, e apontava a Inteligência Educacional como fornecedora exclusiva.
A proposta também fazia referência aos direitos autorais das obras do escritor. Um certificado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) anexado ao processo identificava a Escola de Inteligência Cursos Educacionais como editora e a empresa de Goiânia como responsável exclusiva pela distribuição e comercialização. A exclusividade comercial serviu de fundamento para contratações por inexigibilidade de licitação em diferentes municípios. Nesse modelo, a administração pública pode contratar sem disputa quando estão presentes as hipóteses previstas na legislação.
Itajaí concentra R$ 21,8 milhões
O maior volume financeiro identificado no levantamento está em Itajaí, em Santa Catarina. Entre 2017 e 2021, cinco contratos relacionados à metodologia alcançaram R$ 21,83 milhões. Os valores passaram de R$ 1,19 milhão em 2017 para R$ 2,68 milhões no ano seguinte. Em 2019, foram R$ 4,31 milhões; em 2020, R$ 5,98 milhões; e, em 2021, R$ 7,64 milhões. Uma das contratações chegou a ser analisada pelo Ministério Público de Santa Catarina.
O procedimento foi arquivado em 2023, após o órgão considerar regular a contratação por inexigibilidade de licitação e afastar a hipótese de superfaturamento. Cuiabá, em Mato Grosso, também aparece entre os municípios com maior volume contratado. Em 2017, um acordo de R$ 1,04 milhão previa a aquisição de kits da Escola da Inteligência e identificava Cury como autor da metodologia e a Inteligência Educacional como responsável exclusiva pela comercialização.
Dois anos depois, a prefeitura adquiriu outros 15.507 kits por R$ 3,48 milhões. Somadas, as duas contratações chegaram a R$ 4,53 milhões. Em Lagoa Santa, Minas Gerais, três contratos alcançaram R$ 2,94 milhões. A Secretaria Estadual de Educação do Tocantins aparece com uma contratação de R$ 1,55 milhão, enquanto um processo em Paranaguá, no Paraná, chegou a R$ 998,7 mil.
O levantamento encontrou ainda registros relacionados à metodologia em Ilhéus (BA), Teresina (PI), Porto Alegre (RS), Valparaíso de Goiás (GO), Porto União e Pomerode, em Santa Catarina, além da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará. Ao todo, foram localizadas operações em dez Estados.
Empresa da família foi negociada por R$ 288 milhões
Enquanto a Inteligência Educacional aparece nos documentos relacionados às vendas ao poder público, a empresa responsável pela edição das obras passou por uma operação no mercado privado. A Escola de Inteligência Cursos Educacionais pertencia à esposa de Cury, Suleima, às filhas Camila, Carolina e Cláudia e ao genro Bruno Oliveira. O escritor não integrava formalmente o quadro societário. Em 2020, a Arco Educação adquiriu 60% da companhia por R$ 288 milhões.
Em comunicação à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, a compradora informou que a operação abrangia apenas o negócio da Escola da Inteligência direcionado ao setor privado. Os documentos citados no levantamento indicam, portanto, duas frentes distintas. Enquanto a empresa ligada à família passou pela operação com a Arco, a Inteligência Educacional continuou a aparecer como responsável pela comercialização dos materiais nos contratos com governos e prefeituras.
Documentos divergem sobre direitos autorais
O levantamento também identificou uma divergência relacionada aos direitos autorais da metodologia de Cury. Quando o programa foi implantado em Itajaí, em 2017, a prefeitura informou que o escritor havia renunciado aos direitos autorais e patrimoniais relacionados à metodologia.
Dois anos depois, porém, a proposta apresentada pela Inteligência Educacional à Prefeitura de Caçador mencionava expressamente direitos autorais pertencentes a Augusto Cury. Segundo a apuração, não foi localizado o documento que formalizaria a renúncia mencionada pela Prefeitura de Itajaí. A ausência desse registro impede esclarecer, a partir da documentação encontrada, quais direitos teriam sido transferidos e em quais condições.