30/06/25
O físico Walter Mendes Ferreira, reconhecido por ter identificado o acidente radioativo com o césio-137 em Goiânia há quase 38 anos, foi exonerado do cargo de coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), órgão vinculado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O engenheiro Almir Aniceto de Sousa Filho, até então chefe do escritório da CNEN em Brasília, assumirá o posto e passará a monitorar cerca de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos armazenados no Parque Estadual Telma Ortegal, em Abadia de Goiás.
A substituição causou surpresa entre técnicos da CNEN, uma vez que Walter foi peça-chave no controle do maior acidente radiológico urbano do mundo. À época, como profissional autônomo, ele foi o primeiro a reconhecer a gravidade da contaminação, o que permitiu a adoção imediata de medidas de contenção. Contratado pela CNEN após o episódio, Walter atuou por 25 anos no Rio de Janeiro e retornou a Goiânia em 2020 para chefiar o CRCN-CO. No ano passado, ele foi homenageado pela Assembleia Legislativa por sua atuação durante o desastre.
A nomeação de Almir Aniceto, pastor evangélico e ex-assessor parlamentar, gerou questionamentos sobre sua experiência técnica na área nuclear. Ele assumiu o escritório da CNEN em Brasília em janeiro deste ano e também foi designado como coordenador do Grupo de Apoio a Emergências no CRCN-CO. Procurado, evitou declarações diretas e informou que se manifestaria apenas por meio da assessoria de comunicação. Já Walter, ao comentar sua exoneração, disse que a troca é prerrogativa do presidente da CNEN, Francisco Rondinelli, e preferiu não polemizar.
Apesar da mudança, Walter continuará contribuindo com a CNEN como coordenador do Núcleo de Segurança e Proteção Radiológica, ligado à presidência da instituição, no Rio de Janeiro. Ele reafirmou que permanecerá em Goiânia, onde pretende manter sua base familiar e profissional. Em 2023, ele colaborou com a “Operação Fraude Radioativa”, que desvendou um esquema de desvio de recursos relacionados ao acidente de 1987, gerando prejuízo superior a R$ 20 milhões. A CNEN, por sua vez, justificou a troca afirmando que revisará metas e desafios da unidade sob nova gestão.