11/09/25
Os vereadores de Goiânia terão à disposição uma frota renovada de veículos de alto padrão, com regras que permitem deslocamentos não apenas dentro da Região Metropolitana, mas também em outros municípios e até em viagens interestaduais, desde que haja autorização da Diretoria de Transporte e Abastecimento. Oficialmente, a justificativa é a realização de atividades legislativas, mas a portaria que regulamenta o uso dos carros abre espaço para que, na prática, os parlamentares utilizem os veículos em agendas políticas ligadas às suas futuras candidaturas. Considerando que pelo menos 19 dos 37 vereadores já manifestaram intenção de disputar cargos em 2026, o risco de uso eleitoral disfarçado de “atividade parlamentar” é evidente.
O impacto nos cofres públicos é expressivo. Apenas o novo contrato de aluguel, firmado em julho, pode chegar a R$ 6,79 milhões por ano, com uma frota de 82 veículos que inclui SUVs Ford Territory e sedãs Toyota Corolla. Esse valor é mais de três vezes superior ao contrato anterior, que previa gasto de R$ 2 milhões anuais. A justificativa da Câmara para abandonar a frota própria — considerada “precarizada” e composta, em sua maioria, por modelos populares como o Volkswagen Gol — resultou em uma substituição por carros de categoria muito mais elevada, que pouco dialogam com a ideia de austeridade no uso do dinheiro público.
O cenário fica ainda mais crítico quando se observa o contexto político e administrativo da Casa. A aprovação da cota parlamentar de R$ 15,5 mil, que permite custear combustível e outros gastos, somada ao auxílio-representação de R$ 6,9 mil, já gerou uma conta milionária para o contribuinte goianiense em 2025. Na prática, esses mecanismos reforçam a sensação de que a Câmara tem usado sua estrutura para privilegiar os próprios parlamentares, em detrimento do princípio de economicidade. Com o novo regulamento, abre-se margem para que carros de luxo bancados pelo Legislativo se transformem em ferramentas de campanha eleitoral.
A situação expõe um dilema ético e político: o Legislativo municipal, que deveria zelar pela boa aplicação dos recursos públicos, acaba alimentando desconfiança ao criar brechas para o uso de bens oficiais em proveito eleitoral. Em ano pré-eleitoral, a possibilidade de que vereadores utilizem veículos pagos com dinheiro público para circular pelo Estado em agendas políticas é mais um capítulo que compromete a credibilidade da Câmara de Goiânia. A justificativa de “fortalecimento institucional” não apaga o fato de que a medida amplia privilégios e distancia os parlamentares da realidade da população que os elegeu.