23/10/25
A Câmara Municipal de Goiânia parece ter transformado a criação de medalhas e comendas em uma prioridade legislativa. São 75 honrarias ativas atualmente – entre medalhas, comendas, diplomas e prêmios – e, ao que tudo indica, os vereadores não pretendem frear essa fábrica de homenagens. Só em 2023 e 2024 foram criadas 25 novas honrarias e, em 2025, outros dez projetos do mesmo tipo já foram apresentados. Enquanto isso, problemas reais da cidade, como mobilidade, saúde e educação, continuam à espera de soluções efetivas. As informações são da coluna Giro de O Popular.
Um levantamento interno do próprio Legislativo identificou mais de 100 resoluções e decretos que instituíram algum tipo de honraria desde 1979. Após um filtro, a Casa considerou “ativas” 75 delas — ou seja, passíveis de continuar sendo distribuídas em sessões solenes recheadas de discursos e tapinhas nas costas. Onze comendas levam nomes de ex-políticos, como Iris Rezende e Pedro Ludovico, outras exaltam corporativismos profissionais e lideranças religiosas. Mas nenhuma delas oferece qualquer benefício prático à população que paga a conta.
Em 2012, quando ainda existiam apenas 12 honrarias ativas, já havia alerta sobre o risco de “banalização”, como afirmou à época o então presidente da Casa, Iram Saraiva. Doze anos depois, o alerta virou previsão: a Câmara multiplicou por seis o número de honrarias e consolidou o que especialistas chamam de “indústria do aplauso” no Legislativo municipal. Em 2024, o presidente Romário Policarpo (PRD) tentou limitar o abuso, apresentando projeto que restringia a criação de novas homenagens. A proposta não prosperou, afinal, medalhas seguem sendo ferramenta útil de autopromoção política.
Além disso, a enxurrada de honrarias vem acompanhada de outra prática questionável: a distribuição quase automática de títulos de cidadania. Só no primeiro semestre deste ano, 92 pessoas foram agraciadas com o título de “cidadão goianiense”, muitos deles empresários, líderes religiosos, influenciadores e aliados políticos. As sessões solenes para entrega das homenagens se tornaram rotina, ocupando tempo, estrutura e recursos da Casa — sem retorno algum para o contribuinte.