17/01/26
A retórica que trata a Lei Rouanet como “mamata para artista de esquerda” não resiste aos números. Levantamentos de 2025 indicam que os maiores volumes captados pela Lei de Incentivo à Cultura se concentram em nomes do sertanejo com forte atuação em Goiás, artistas já consolidados no mercado e distantes de qualquer militância progressista.
No topo da lista aparece Gusttavo Lima, com cerca de R$ 53 milhões acumulados. Na sequência, Bruno e Marrone somam aproximadamente R$ 45 milhões. Leonardo figura com cerca de R$ 42 milhões. Zezé Di Camargo e Luciano aparecem com R$ 32 milhões, enquanto Amado Batista registra perto de R$ 23 milhões.
Os dados expõem uma contradição recorrente. A crítica política se acirra quando convém ao discurso, mas se dissolve quando os recursos chegam a artistas alinhados ao gosto do próprio campo que ataca a política cultural. O debate deixa de ser sobre critérios, transparência e distribuição e passa a operar por conveniência.
A concentração dos valores também aponta para um problema estrutural. O incentivo não se distribui de forma equilibrada entre quem já ocupa os grandes palcos e quem produz fora do circuito dominante. A cultura, como política pública, não tem partido. O que precisa ter é regra clara, acesso amplo e fiscalização para evitar que o incentivo reforce assimetrias já conhecidas.