17/08/26
A campanha para o Governo de Goiás mal começou, mas Marconi Perillo (PSDB) decidiu entrar justamente em um terreno que expõe um dos capítulos mais problemáticos de suas quatro passagens pelo Palácio das Esmeraldas. Candidato novamente ao cargo, o tucano transformou a Segurança Pública em uma das vitrines de sua campanha e passou a usar as redes sociais para questionar a política adotada atualmente no Estado e defender mudanças no setor.
Ao escolher essa pauta, porém, Marconi inevitavelmente coloca seu próprio histórico de gestão novamente sob análise. É justamente na comparação com o cenário encontrado ao fim de seu último governo que estão alguns dos principais indicadores utilizados pela atual administração para sustentar os avanços na segurança. Também foi durante os governos do tucano que Goiás conviveu com episódios de grande repercussão envolvendo explosões de caixas eletrônicos, ataques a bancos e quadrilhas fortemente armadas que espalhavam medo principalmente pelo interior.
Os números ajudam a dimensionar a diferença entre os períodos. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), tomando 2018 — último ano da administração de Marconi — como referência, até 2025 os homicídios dolosos caíram 62%, os roubos de veículos, 95%, os roubos a transeuntes, 92%, os roubos a estabelecimentos comerciais, 91%, e os roubos de cargas, 98%. Os roubos a instituições financeiras, modalidade que se tornou símbolo das ações do chamado “novo cangaço”, chegaram a zero registro no comparativo.
É uma diferença especialmente significativa porque os ataques contra bancos estiveram entre as imagens mais marcantes da criminalidade durante os governos de Marconi. Quadrilhas fortemente armadas utilizavam explosivos, faziam reféns, bloqueavam acessos e promoviam tiroteios para atacar instituições financeiras. Em alguns episódios, nem instalações das próprias forças de segurança escaparam da ousadia dos criminosos.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em outubro de 2015, em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia. Criminosos explodiram um caixa eletrônico do Banco do Brasil instalado dentro de um pelotão da Polícia Militar. Depois do ataque, o grupo ainda disparou diversas vezes contra o posto policial.
No ano seguinte, a violência chegou ao coração de uma das regiões mais movimentadas e valorizadas de Goiânia. Em setembro de 2016, criminosos explodiram um caixa eletrônico do Banco do Brasil na Praça Tamandaré, no Setor Oeste. Além da detonação, houve disparos nas proximidades. Tiros atingiram a fachada de um supermercado e a Delegacia Regional de Fiscalização.
O problema estava longe de se restringir à capital. Municípios do interior enfrentavam quadrilhas numerosas, armamento pesado, explosivos e reféns, em operações planejadas para dificultar qualquer reação das forças policiais. A modalidade ficou conhecida como “novo cangaço” e transformava ataques a bancos em verdadeiras operações de guerra em cidades com estruturas policiais menores.
Em Caiapônia, no Oeste goiano, duas instituições financeiras foram atacadas em julho de 2017. Pelo menos oito criminosos participaram da ação, segundo informações divulgadas à época. Um motorista e dois trabalhadores da coleta de lixo foram rendidos e feitos reféns. O delegado responsável pela investigação classificou o episódio como uma ação típica do “novo cangaço”.
E os ataques continuaram até os últimos meses daquele ciclo político. Em março de 2018, três suspeitos explodiram caixas eletrônicos no Jardim Europa, em Goiânia. Durante a fuga, houve confronto com policiais militares depois que o veículo utilizado pelo grupo atingiu uma viatura. Os três suspeitos morreram. Dentro do automóvel, foram encontrados dinheiro, armas e materiais relacionados à explosão dos equipamentos.
É nesse histórico que Marconi tenta agora construir seu discurso para a Segurança Pública. A área tornou-se uma das principais vitrines políticas dos governos de Ronaldo Caiado (PSD) e Daniel Vilela (MDB), sustentada sobretudo pela redução dos indicadores criminais registrada nos últimos anos.
Nas redes sociais, Marconi alterna críticas aos resultados atuais, reconhecimento pontual da atuação policial e argumentos de que parte dos avanços teria origem em medidas iniciadas ainda em suas administrações. O movimento, contudo, produz um efeito inevitável: cada promessa apresentada hoje convida à comparação com os quase 16 anos em que o próprio tucano esteve à frente do Governo de Goiás.