Goiânia, 30/08/2026
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O candidato-ritalina e o plano que promete velocidade sem freio

30/08/26

Marconi Perillo (PSDB) voltou à disputa pelo Governo de Goiás em 2026 com um argumento que atravessa sua campanha: a experiência de quem já ocupou o Palácio das Esmeraldas por quatro mandatos. O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 67 páginas e apresentado sob o slogan “Goiás pode muito mais”, traduz essa estratégia em uma sequência de propostas que alcança praticamente todas as áreas da administração estadual.

É daí que surge a imagem do candidato-ritalina. O documento aposta em velocidade, volume e execução simultânea. Há propostas para zerar filas na saúde, contratar policiais, ampliar inteligência policial, recuperar rodovias, retomar programas, expandir a conectividade no campo, utilizar inteligência artificial no agronegócio, realizar concursos, criar estruturas administrativas e abrir hospitais. Tudo aparece dentro de uma mesma lógica: acelerar.

Na educação, Marconi coloca a alfabetização entre as prioridades, estabelece metas progressivas para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), propõe ampliar o ensino em tempo integral e realizar concursos. O programa também prevê restabelecer a vinculação de 2% da receita estadual para a Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Na saúde, uma das propostas é criar um painel integrado, com funcionamento 24 horas, para acompanhar filas, capacidade de atendimento e utilização da rede. O plano inclui ainda telessaúde, teleconsultas, telelaudos e concursos para profissionais do setor. Fora do documento, a campanha também passou a defender a redução das filas de consultas, exames e cirurgias nos primeiros meses de governo, sob o argumento de que mais de 100 mil pessoas aguardam atendimento.

A segurança pública recebe outro conjunto de compromissos. Marconi propõe ampliar a inteligência policial, modernizar as polícias Civil e Científica e reforçar o policiamento rural e nas divisas. Entre as promessas apresentadas durante a campanha está ainda a realização de concurso para contratar 5 mil policiais militares.

Na economia, o tucano promete medidas para facilitar a chegada de investidores, estimular centros de processamento de dados e retomar o Banco do Povo como instrumento de crédito para microempreendedores. Para o agronegócio, aparecem conectividade rural, mecanização, automação, inteligência artificial e mudanças na assistência técnica.

O cardápio continua na infraestrutura. O plano prevê conservação permanente das rodovias, integração com corredores considerados estratégicos, investimentos em mobilidade e saneamento em parceria com os municípios e tratamento da conectividade como parte da infraestrutura estadual.

Do hospital ao Cheque Moradia
As propostas anunciadas durante a campanha ampliaram a lista apresentada ao eleitor. Marconi defende a abertura do Hospital de Águas Lindas, a construção de uma unidade de urgência no Entorno Sul e a criação de uma Secretaria Ordinária do Entorno de Brasília. Também estão no conjunto de compromissos a retomada do Cheque Moradia e do Cheque Reforma, a estadualização de estradas e uma reestruturação do Ipasgo que devolva a participação do funcionalismo na gestão.

Parte dessa estratégia recupera programas associados aos governos anteriores de Marconi. O candidato cita Vapt Vupt, Ipasgo, UEG, Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), Bolsa Universitária e Restaurantes Populares como referências de suas administrações.

A experiência se transforma, dessa forma, em um dos argumentos centrais da candidatura. Ao afirmar que, “ao contrário do outro candidato, eu sei como fazer”, Marconi tenta apresentar seus quatro mandatos não como sinal de repetição, mas como credencial para executar aquilo que promete. É justamente nesse ponto que o candidato-ritalina encontra seu primeiro problema: estabelecer prioridades.

Muitas promessas, poucas escolhas
Um plano de governo não serve apenas para apresentar tudo aquilo que uma administração deseja realizar. Também deveria permitir ao eleitor identificar quais problemas receberão prioridade, quanto custarão as soluções e quais compromissos terão de esperar.

Nas sínteses públicas das propostas de Marconi, não há uma hierarquia definida entre medidas que exigem impacto financeiro distinto. Zerar filas em poucos meses, contratar 5 mil policiais, abrir e construir hospitais, manter uma política permanente de recuperação rodoviária e ampliar a digitalização dos serviços públicos exigem recursos e capacidade administrativa.

A questão não está necessariamente na validade individual de cada proposta. Contratar policiais pode ser necessário. Reduzir filas na saúde também. Recuperar rodovias, ampliar conectividade e modernizar serviços são demandas presentes em qualquer administração estadual. O problema surge quando todas recebem tratamento de prioridade simultânea sem que o eleitor saiba qual delas virá primeiro ou de onde sairão os recursos.

É nesse ponto que a velocidade proposta pelo candidato encontra o limite da administração pública. Orçamento exige escolhas. Governar pressupõe decidir não apenas o que será feito, mas também aquilo que não poderá ser executado naquele momento.

O histórico político de Marconi também acrescenta outra camada à análise. Depois de quatro mandatos, parte das propostas apresentadas em 2026 remete a políticas utilizadas durante suas próprias administrações. Banco do Povo, programas habitacionais, UEG e modelos de atendimento ao cidadão reaparecem com espaço no projeto.

A novidade surge principalmente pelo vocabulário tecnológico. Inteligência artificial, telessaúde, painéis de acompanhamento e conectividade rural atualizam a embalagem das propostas, mas não eliminam a necessidade de explicar custos, estrutura e sustentabilidade fiscal.

Trinta segundos para explicar 67 páginas
Há ainda uma dificuldade eleitoral. Marconi dispõe de apenas 30 segundos no horário eleitoral gratuito destinado aos candidatos ao Governo de Goiás. Daniel Vilela (MDB), por exemplo, tem 4 minutos e 24 segundos. O pouco espaço obriga o tucano a condensar um programa de 67 páginas em mensagens curtas e direcionar parte da comunicação para as redes sociais. Para uma candidatura sustentada em uma quantidade extensa de propostas, o tempo reduzido limita a possibilidade de explicar como cada compromisso seria colocado em prática.

O risco é que o programa de governo funcione mais como um catálogo eleitoral do que como instrumento para o eleitor acompanhar posteriormente o cumprimento das promessas. A situação se torna ainda mais relevante porque Marconi não pode recorrer ao argumento da falta de experiência. Poucos políticos goianos conhecem tanto a estrutura do Estado quanto alguém que governou Goiás entre 1999 e 2006 e novamente entre 2011 e 2018.

Por isso, depois de quatro mandatos, a cobrança sobre o tucano é diferente daquela feita a um candidato que nunca ocupou o Executivo estadual. Se conhece a máquina, o orçamento e os limites administrativos, espera-se que consiga dizer não apenas o que pretende fazer, mas como pretende pagar e executar.

O plano apresentado em 2026 entrega justamente aquilo que a metáfora do candidato-ritalina sugere: movimento constante. Marconi quer reduzir filas, contratar policiais, construir hospitais, recuperar estradas, ampliar serviços, retomar programas e incorporar tecnologia à administração. Energia e quantidade de propostas, porém, não resolvem sozinhas uma equação de governo.

Depois de quatro passagens pelo Palácio das Esmeraldas, a questão colocada pela candidatura de Marconi não é se ele conhece o Estado ou se sabe como funciona a administração. Seu próprio currículo responde a essas perguntas. A dúvida é outra: diante de tantas promessas, quais são as prioridades, quanto elas custam e o que será deixado para depois? O candidato-ritalina oferece mais velocidade. O plano ainda precisa mostrar onde estão os freios.


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