30/08/26
Os candidatos à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) conseguiram utilizar as entrevistas concedidas à TV Globo para transmitir suas mensagens diretamente aos eleitores, mesmo diante de um formato considerado “engessado” pelo Jornal Opção. Em análise sobre a cobertura da emissora na eleição de 2026, o veículo sustenta que os políticos não comparecem a esse tipo de entrevista apenas para responder ao roteiro dos jornalistas, mas também para apresentar suas propostas e construir uma imagem perante o eleitorado.
A avaliação parte do entendimento de que a pauta de um candidato nem sempre coincide com aquela definida pelo veículo responsável pela entrevista. Para o Jornal Opção, Caiado e Zema compreenderam essa diferença e buscaram aproveitar o espaço para falar de suas experiências como gestores, posições políticas e propostas para o país.
Na análise, o veículo afirma que os dois foram bem como candidatos, ainda que suas respostas nem sempre tenham atendido ao formato esperado pelos entrevistadores. “Como ‘estagiários’ do jornalismo de César Tralli e Renata Vasconcellos, foram mal. Como candidatos, foram bem. Se apresentaram, disseram o que pensam. Não agradaram jornalistas, que influenciam as pessoas, inclusive especialistas, mas deram seu recado”, diz o texto.
O Jornal Opção ressalta que a crítica não está direcionada à capacidade profissional dos apresentadores César Tralli e Renata Vasconcellos, classificados pelo próprio texto como jornalistas de referência. O questionamento se concentra no modelo adotado nas entrevistas e na expectativa de que os candidatos permaneçam dentro do enquadramento estabelecido pela emissora.
Na interpretação do veículo, o político entra no estúdio com um objetivo diferente daquele dos entrevistadores. Enquanto os jornalistas procuram respostas para uma pauta definida previamente, o candidato pretende utilizar a exposição nacional para apresentar sua candidatura a milhões de pessoas. O espaço oferecido pela Globo também pesa nessa estratégia. A análise compara os cerca de 40 minutos de exposição na emissora a “um prêmio acumulado da Megasena”, devido ao alcance nacional e à oportunidade que um candidato tem de falar durante um período superior ao disponível na propaganda eleitoral.
Caiado e Zema apostam na própria pauta
É nesse contexto que o Jornal Opção coloca Caiado e Zema entre os candidatos que conseguiram contornar o formato das entrevistas. Segundo a análise, ambos demonstraram capacidade para redirecionar determinadas perguntas e apresentar assuntos que consideram importantes para suas respectivas campanhas.
O comportamento, conforme o texto, não significa necessariamente fugir dos questionamentos. A avaliação é que candidatos experientes conhecem a dinâmica eleitoral e sabem que determinadas discussões técnicas dificilmente podem ser desenvolvidas nos poucos minutos disponíveis para cada resposta.
A reforma tributária é utilizada como exemplo. Para o veículo, temas dessa complexidade exigiriam um período maior para explicação, o que leva os candidatos a adotar respostas mais gerais. “Questões altamente técnicas, como a reforma tributária, precisam de um tempo quase infinito, não de um ou dois minutos. Sabendo disso, os políticos falam de maneira mais genérica”, afirma a análise.
O Jornal Opção considera que essa estratégia costuma ser interpretada por parte da cobertura política como uma tentativa de escapar das perguntas. Na visão apresentada pelo veículo, porém, o comportamento também pode representar uma escolha eleitoral: utilizar o tempo para abordar temas que o candidato acredita terem maior capacidade de comunicação com o público.
Além de Caiado e Zema, o texto analisa o desempenho de outros postulantes ao Palácio do Planalto. Renan Santos é descrito como alguém que apresentou dificuldades para organizar sua mensagem. A análise foi produzida antes das entrevistas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Crítica ao modelo de cobertura
A discussão sobre as entrevistas faz parte de uma crítica mais ampla do Jornal Opção ao jornalismo político praticado pela Globo. O veículo recorre ao conceito de “ética do deslize”, atribuído ao filósofo José Arthur Giannotti, para questionar uma cobertura que, em sua avaliação, privilegia erros, conflitos e aspectos negativos. O texto sustenta que o receio de parecer pouco crítico leva veículos e jornalistas a adotar postura semelhante diante de políticos diferentes. Para a publicação, essa busca por equidistância pode reduzir o espaço destinado à análise das particularidades de cada administração e de cada região do país.
Como exemplo, a análise cita a passagem recente de César Tralli e Renata Vasconcellos por Pirenópolis, em Goiás. Os jornalistas conversaram com moradores em uma praça da cidade durante uma série de reportagens pelo país. O Jornal Opção questiona, porém, a ausência de uma abordagem mais aprofundada sobre economia, agronegócio, educação, segurança pública e saúde no Estado.
O veículo cita o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (Cora), associado à administração de Ronaldo Caiado, e o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), implantado durante os governos de Marconi Perillo (PSDB), como exemplos de iniciativas de adversários políticos que poderiam ter sido utilizadas para discutir políticas públicas.
A mesma crítica alcança temas como o desempenho econômico de Goiás, o peso do agronegócio e os indicadores de segurança e educação. Para o Jornal Opção, diferenças entre os Estados deveriam receber maior espaço para que o público pudesse compreender resultados, problemas e modelos administrativos distintos.
Objetividade no lugar da imparcialidade
A análise também questiona o conceito de jornalismo independente e imparcial. A publicação argumenta que veículos e profissionais possuem visões, interesses e escolhas editoriais e defende que a cobrança principal deveria recair sobre a objetividade, a apuração e o espaço para o contraditório.
Dentro dessa interpretação, o Jornal Opção afirma que a Globo não demonstra alinhamento claro com os dois candidatos que concentram a polarização nacional, Lula e Flávio Bolsonaro. O veículo classifica a posição da emissora como uma tentativa de manter distância equivalente dos principais grupos políticos.
É a partir dessa discussão que a publicação volta ao desempenho de Caiado e Zema. Para o Jornal Opção, os dois perceberam que uma entrevista de televisão não representa apenas um teste de capacidade para responder às perguntas formuladas pelos jornalistas. Ela também constitui uma oportunidade eleitoral.
Nesse ambiente, o candidato que consegue responder, apresentar sua trajetória e, ao mesmo tempo, conduzir parte da conversa para os assuntos que pretende colocar diante do eleitor pode sair do estúdio sem cumprir integralmente o “figurino” esperado pelos entrevistadores, mas com sua mensagem transmitida.